Um dos médicos mais conhecidos do Espírito Santo, o cardiologista Victor Murad, de 90 anos, passou mais de um ano enfrentando uma sequência de problemas de saúde que pareciam não ter explicação clínica. O que inicialmente era tratado como agravamento de doenças pré-existentes acabou revelando um cenário muito mais grave: ele teria sido vítima de envenenamento dentro do próprio local de trabalho.

De acordo com a investigação conduzida pelo Ministério Público estadual, a principal suspeita é a secretária do consultório, funcionária antiga e pessoa de confiança do médico. Ela é acusada de administrar pequenas doses de arsênio de forma contínua, ao mesmo tempo em que desviava recursos das contas da vítima.

A mulher trabalhava na clínica havia mais de uma década e tinha acesso direto às finanças pessoais do cardiologista. Segundo os promotores, o controle sobre pagamentos, saques e transferências facilitou a movimentação irregular de valores sem levantar suspeitas imediatas.

Desvios bancários e padrão de vida elevado

A apuração aponta que, ao longo dos anos, cerca de R$ 544 mil teriam sido retirados das contas do médico. Os saques eram feitos em valores variados e, muitas vezes, repetidos no mesmo dia, estratégia que dificultava a percepção de perdas maiores.

Enquanto o saldo bancário diminuía sem justificativa, a investigada mantinha um estilo de vida considerado incompatível com a renda declarada, com viagens frequentes e hospedagens em hotéis de alto padrão.

O próprio médico relata que confiava plenamente na funcionária e, por isso, não desconfiava das movimentações. Ele só começou a questionar a situação ao perceber que o patrimônio não evoluía, apesar de manter a mesma rotina de gastos.

Sintomas misteriosos e agravamento da saúde

Paralelamente às suspeitas financeiras, o estado de saúde do cardiologista se deteriorava. Ele passou a sofrer com dores intensas, episódios de vômito com sangue, anemia severa, fraqueza nas pernas e piora dos tremores causados pelo Parkinson.

Segundo a investigação, o veneno teria sido misturado a alimentos e bebidas oferecidos durante o expediente. O quadro foi tão debilitante que o médico precisou encerrar as atividades do consultório, mantido por décadas.

A suspeita de intoxicação surgiu após a demissão da secretária, quando um recipiente com arsênio foi encontrado escondido em um depósito da clínica.

Prova veio do exame de cabelo

Como o arsênio não permanece por muito tempo no sangue ou na urina, os peritos recorreram a uma alternativa menos comum: a análise de fios de cabelo. O exame confirmou a presença da substância tóxica acumulada ao longo do tempo, indicando exposição prolongada por, pelo menos, 15 meses.

A polícia também rastreou a compra do produto, que teria sido feita usando dados do marido da suspeita. Ele chegou a ser investigado, mas foi descartado o envolvimento direto.

Defesa contesta acusações

Presa desde outubro, a ex-secretária deve responder por tentativa de homicídio qualificado e outros crimes relacionados aos desvios financeiros. A defesa nega as acusações e sustenta que não há provas de que ela tenha sido a responsável pelo envenenamento, além de afirmar que as movimentações bancárias teriam sido autorizadas.

Em recuperação em casa, o médico ainda demonstra incredulidade com o caso. Pessoas próximas afirmam que ele tratava a funcionária como alguém da família, o que teria facilitado a confiança irrestrita.

O processo segue em andamento na Justiça.

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