O clima de tensão voltou a tomar conta do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Dias depois da morte de Marílio dos Santos, conhecido como “Maquinista” apontado como mandante do assassinato de Mãe Bernadete, imóveis da comunidade foram pichados com mensagens atribuídas a uma facção criminosa.
Entre os alvos estão prédios públicos, residências e até uma igreja frequentada pela líder quilombola. Em uma das inscrições, a frase deixada no local exalta o criminoso morto, numa demonstração que vai além de vandalismo: trata-se de um recado direto de afronta ao Estado.
Moradores relatam medo crescente. Além da destruição, há denúncias de intimidações e ameaças, o que tem provocado um ambiente de insegurança permanente dentro da comunidade.
A Secretaria da Segurança Pública da Bahia informou que o policiamento foi intensificado na região. Ainda assim, o episódio levanta um alerta inevitável: até que ponto o reforço pontual consegue conter organizações criminosas que agem com tamanha liberdade?
A morte de “Maquinista” ocorreu durante uma operação policial na zona rural de Catu. Segundo o governo estadual, ele reagiu à abordagem, foi baleado, chegou a ser socorrido, mas não resistiu. Dias antes, havia sido condenado a quase 30 anos de prisão pelo assassinato de Mãe Bernadete, executada a tiros em 2023.
O que mais chama atenção neste caso não é apenas a violência, mas a ousadia. Quando uma facção se sente confortável para pichar espaços simbólicos de uma comunidade tradicional, deixando homenagens a um criminoso condenado, o sinal é claro: há uma disputa aberta por território e poder, e o Estado parece sempre chegar depois.
É preciso separar responsabilidades. O trabalho das forças policiais, muitas vezes feito sob pressão e risco constante, não pode ser confundido com a ausência de uma estratégia mais ampla. O problema é estrutural. Falta inteligência, presença contínua e, sobretudo, uma resposta firme que vá além de operações isoladas.
Enquanto isso, quem paga o preço é a população que vive entre o medo e a incerteza, assistindo a facções testarem, cada vez mais, os limites da autoridade pública.