Uma investigação jornalística revelou denúncias de pessoas que afirmam ter recebido cartas psicografadas pela médium Maira Rocha com informações que já estavam disponíveis publicamente na internet. Os relatos envolvem famílias de diferentes estados que procuraram a Casa de Caridade Inácio Daniel, em Águas Claras, no Distrito Federal, em busca de mensagens de parentes mortos.

Segundo a apuração publicada nesta segunda-feira (31), algumas famílias identificaram nas cartas frases, nomes, acontecimentos e detalhes que apareciam anteriormente em publicações no Facebook, Instagram e outras páginas abertas. Em outros casos, foram apontados erros considerados graves pelos parentes, como nomes de pessoas que nunca existiram ou referências a acontecimentos incompatíveis com a história do falecido.

Maira Rocha, que possui grande presença nas redes sociais, é fundadora da Casa de Caridade Inácio Daniel. A Polícia Civil do Distrito Federal abriu investigação para apurar denúncias de possível charlatanismo relacionadas ao caso.

Familiares dizem ter encontrado trechos semelhantes

Um dos casos relatados envolve um homem que recebeu uma mensagem atribuída à mãe, já falecida. Depois da emoção inicial, a família passou a comparar o conteúdo da carta com publicações antigas e encontrou semelhanças entre os textos.

Em outro episódio, parentes afirmam ter identificado informações retiradas de publicações sobre uma formatura, comentários familiares e até de uma comunidade de ciclistas na internet.

As famílias também relatam inconsistências. Em uma das cartas, por exemplo, teria aparecido o nome de uma suposta neta que, segundo os parentes, nunca existiu. Em outro caso, um apelido utilizado por uma pessoa nas redes sociais teria aparecido na mensagem, embora a família afirme que o falecido nunca utilizava aquela forma de tratamento.

Houve ainda o relato de uma carta que mencionava a presença espiritual de uma mulher em um casamento ocorrido quando ela ainda estava viva, segundo os familiares.

Como funcionam as cartas

De acordo com as informações divulgadas pela própria Casa de Caridade Inácio Daniel, interessados podem colocar o nome de um ente querido em um livro durante as atividades realizadas no local. A pessoa precisa participar posteriormente de outra atividade e, caso haja autorização para a mensagem, a carta é escrita e entregue.

O serviço é apresentado como gratuito e sem garantia de que todos receberão uma mensagem.

A instituição afirma que o processo depende da suposta autorização espiritual para que a carta seja produzida. 

Denúncias chegaram à Federação Espírita Brasileira

Segundo a reportagem, pessoas que afirmam ter sido prejudicadas procuraram a Federação Espírita Brasileira (FEB) para relatar suas experiências.

A entidade orienta que o público tenha cuidado com pessoas ou instituições que utilizem a fé para solicitar dinheiro ou explorar emocionalmente quem enfrenta o luto. A FEB também defende que mensagens mediúnicas sejam recebidas com cautela e que o questionamento faça parte da prática espírita.

Em manifestação sobre golpes envolvendo o uso das redes sociais, a Federação alertou que pessoas em processo de luto podem se tornar especialmente vulneráveis a abordagens que prometem contato com familiares mortos. 

Vítimas relatam consequências emocionais

Entre os depoimentos apresentados na investigação estão relatos de pessoas que afirmam ter desenvolvido forte abalo emocional após descobrir as supostas inconsistências nas cartas.

Uma das mulheres ouvidas disse que passou por momentos de crise depois de concluir que as mensagens que havia recebido não correspondiam ao que acreditava inicialmente.

Outros familiares afirmam que começaram a desconfiar depois de comparar as cartas com publicações antigas e encontrar informações que, segundo eles, poderiam ter sido obtidas diretamente das redes sociais.

Além das denúncias sobre as psicografias, há relatos de conflitos entre críticos e a médium, incluindo acusações de ações judiciais e registros de ocorrências contra pessoas que questionaram o trabalho realizado na instituição.

As acusações ainda estão sob apuração. Até o momento, a investigação policial deverá esclarecer a origem das informações utilizadas nas cartas e se houve, de fato, fraude na produção das mensagens atribuídas aos mortos. 

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