Um vídeo produzido com inteligência artificial foi usado para criar a história de um suposto padre que teria perdido as duas pernas e estaria arrecadando dinheiro para comprar próteses. A campanha circulou nas redes sociais e conseguiu chamar a atenção de milhares de pessoas.
O personagem, apresentado como “Padre Mateus”, aparece em uma cadeira de rodas e afirma ter 38 anos. Segundo a narrativa do vídeo, ele teria sofrido um acidente enquanto seguia para celebrar uma missa e precisou amputar as duas pernas.
A história foi publicada pela página “Caminhada Curta”, no Facebook, em agosto. O conteúdo utiliza outros personagens para dar aparência de realidade ao relato e aumentar a comoção de quem assiste.
As primeiras suspeitas surgiram em Valinhos, no interior de São Paulo. Uma pessoa ligada a uma instituição que atende idosos recebeu o vídeo e procurou ajuda para descobrir quem era o religioso. Ao analisar a gravação, o jornalista e teólogo Felipe Zangari percebeu que os movimentos da boca não acompanhavam naturalmente a fala.
A investigação também não encontrou registros que comprovassem a existência do suposto padre ou o acidente relatado na gravação.
Pix levava a uma empresa
O caso ganhou outro contorno quando o link divulgado para as doações foi analisado. A campanha direcionava os interessados para uma página chamada “Ande com Padre Mateus”, onde havia a opção de contribuição por Pix.
Ao simular uma transferência, foi identificado que o dinheiro não seria enviado para uma paróquia ou para o próprio religioso apresentado no vídeo. O beneficiário indicado era a empresa Gestão Solidar Digital LTDA., sediada em Florianópolis.
A apuração também encontrou inconsistências nos dados utilizados para os pagamentos. Em determinadas transações aparecia o nome de “Helena Farias”, enquanto o CPF associado pertenceria a uma idosa de Goiás. Segundo as reportagens, não há indicação de que essa mulher tivesse conhecimento do uso de seus dados.
Outra empresa, a fintech Cartwave, aparece na intermediação dos pagamentos. As reportagens também registraram tentativas de contato com empresas relacionadas à operação, mas não houve resposta aos pedidos de esclarecimento até a publicação das matérias consultadas.
Mesma estratégia aparece em outros vídeos
A história não parece ter ficado restrita ao personagem chamado Mateus. Outros vídeos identificados nas redes sociais apresentam religiosos fictícios com nomes diferentes, mas repetem a mesma fórmula: um padre supostamente amputado, uma narrativa de sofrimento e um pedido de dinheiro para a compra de próteses.
Em uma das gravações, o religioso é chamado de “Miguel”. Em outra, aparece como “Rafael”. Os motivos apresentados para a amputação também mudam, indicando que a mesma estratégia pode estar sendo adaptada para produzir diferentes campanhas.
O caso serve de alerta para quem costuma contribuir com campanhas divulgadas pela internet. A aparência realista de um vídeo não é suficiente para comprovar que uma história é verdadeira. Antes de fazer qualquer Pix, é importante confirmar a identidade do beneficiário e procurar a instituição, paróquia ou entidade citada na campanha por canais oficiais e independentes.