Desde muito pequena, Julia Micaelly Ribeiro Carvalho, hoje com 20 anos, sentia que havia algo de diferente em seu corpo. Nascida em Pedreiras, no interior do Maranhão, ela se lembra do desconforto que sentia ao notar os pelos e os seios já em desenvolvimento, enquanto as colegas da mesma idade ainda mantinham os traços típicos da infância.

“Eu fazia natação na escola e via que meu corpo não era igual ao das outras meninas. Elas não tinham pelos, tinham um corpinho infantil. Eu já tinha seios e isso me deixava muito envergonhada”, conta Julia em entrevista .
Com vergonha, ela evitava trocar de roupa junto com as outras alunas e se escondia no banheiro. A família demorou a procurar ajuda médica, até que, por sugestão da mãe de uma colega, a menina foi levada a uma endocrinopediatra, especialista em hormônios infantis.

A médica pediu uma série de exames, que mostraram que, aos 7 anos, Julia já tinha idade óssea de 12 e estava prestes a menstruar. Foi quando veio a puberdade precoce.

O tratamento hormonal começou de forma intensa, com injeções frequentes até os 11 anos. “No começo eram três por mês. Depois foi diminuindo, mas ainda assim era doloroso. Até hoje passo mal só de ver uma agulha”, diz.

Julia também conta que viveu a infância com muita dúvida e tristeza. “Sentia que tinha algo errado comigo. O tratamento doía e eu não entendia por que tudo aquilo estava acontecendo”, relembra.

A  menstruação veio aos  onze anos de idade, trazendo confusão e revolta. “Minha mãe sempre dizia que o tratamento era pra eu não menstruar. Quando aconteceu, achei que tudo tinha sido em vão. Chorei muito, fiquei indignada. Meu pai tentava me acalmar, mas eu só chorava”, afirma a jovem.

Casos como o de Julia, em que a puberdade começa antes dos 9 anos, são considerados raros e precisam ser interrompidos com tratamento para evitar problemas de saúde. A puberdade precoce aumenta o risco de alterações ósseas, baixa estatura, infertilidade e até uma menopausa precoce, segundo a ginecologista e obstetra Camilla Pinheiro, do Hospital Sírio-Libanês.

“Aos 4 anos, é completamente fora do padrão, e nesses casos o bloqueio da puberdade é necessário. Existem inúmeras causas e muitas possíveis consequências físicas e mentais. O cérebro da criança ainda não está preparado para passar por esse processo”, explica a médica.

Aos 16 anos, Julia teve uma hemorragia inesperada. Até então, não sentia dores ou sintomas fora do comum. “Não tive nenhum sinal antes. Queria ter sentido algo, pra ter chance de investigar. Mas aconteceu de uma hora pra outra e tive que aceitar que minha vida tinha mudado”, desabafa.

O sangramento levou à descoberta de um  cisto no ovário, e à remoção dos dois ovários. Foi quando ouviu, pela primeira vez, que estava na menopausa. “Pra mim, menopausa era coisa de mulher com 50 anos. Quando me disseram, achei que era brincadeira. Depois que entendi, entrei em pânico. Achei que minha vida tinha acabado”, relata.

De acordo com a médica Camilla Pinheiro, a menopausa causada pela retirada dos ovários costuma ser mais intensa do que a que ocorre de forma natural, especialmente quando acontece em mulheres muito jovens. Isso porque a mudança hormonal é repentina e o corpo não tem tempo de se adaptar gradualmente.

“Tudo acontece de forma abrupta. O organismo não é preparado aos poucos, então os sintomas tendem a ser mais intensos. Há mais ondas de calor, irritabilidade, alterações de humor. É uma mudança que ocorre de um dia para o outro, sem transição”, explica a ginecologista.

 

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