Uma operação conjunta das polícias Militar e Civil, realizada em 11 de julho de 2024, tornou-se alvo de uma investigação conduzida pela Corregedoria da Polícia Civil e pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA). A apuração envolve três policiais militares e um ex-PM suspeitos de integrar um esquema de desvio de armas, que teria culminado na tortura e morte de duas pessoas.

Na ocasião, o Departamento de Polícia Metropolitana (Depom) e a Coordenação de Recursos Especiais (Core) anunciaram o que seria uma das maiores apreensões de armas daquele ano: uma submetralhadora, seis fuzis e mais de mil munições encontradas em um matagal de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. Entretanto, denúncias apontam que o arsenal real seria bem maior, incluindo pelo menos 20 armas longas e diversas pistolas.

O delegado Nilton Tormes, então coordenador do Depom, é peça central na investigação. Ele foi exonerado do cargo em março, suspeito de envolvimento no caso. O depoimento de Tormes ajudou a identificar os denunciados:

  • Roque de Jesus Dórea, capitão do Departamento Pessoal da PM;
  • Jorge Adisson Santos da Cruz, ex-PM expulso por envolvimento em sequestro seguido de morte, em 2015;
  • Ernesto Nilton Nery Souza, soldado da PM lotado no bairro da Liberdade.

Como ocorreu a ação

Segundo a denúncia, o capitão Dórea informou ao cabo PM Tibério do Vale Alencar sobre um esconderijo de drogas e armas em Lauro de Freitas. A informação teria sido obtida dias antes, durante uma operação que resultou na morte de Manoel Ferreira Santos, o “Nei”, apontado como integrante de facção criminosa.

Tibério levou a informação ao delegado Nilton Tormes, que articulou a operação. Policiais civis e militares se encontraram na Estrada CIA–Aeroporto para planejar a ação. Participaram também Joseval Santos Souza, apelidado “Maquinista” e apontado como informante de Dórea, e seu enteado, Jeferson Sacramento Santos.

Durante a busca na mata, sob chuva e sem lanternas, o grupo encontrou as armas enterradas em tonéis. O material foi colocado em uma viatura da Core e levado para a sede da SSP-BA. Nenhum registro formal da quantidade de armamento foi feito.

Desaparecimento e mortes

Horas depois, familiares de Joseval e Jeferson relataram o desaparecimento dos dois. Mensagens enviadas do celular de Jeferson informavam que eles estavam sob poder de policiais, que exigiam R$ 30 mil para libertá-los.

Dias depois, os corpos foram encontrados com sinais de tortura e perfurações de tiros: Jeferson em Águas Claras e Joseval em Cajazeiras de Abrantes.

O delegado Adailton Adam, da Delegacia Antissequestro, ligou as mortes à ação dos policiais investigados. Segundo ele, o soldado Nery admitiu ter executado Joseval e confessou ter ficado com uma das armas. O cartão de crédito de Jeferson foi usado pelo militar para comprar um lanche, reforçando as evidências contra ele.

Prisões e sumiço de provas

Em agosto de 2024, Nery, Dórea e Adisson foram presos. Com eles, a polícia apreendeu drogas, dinheiro e a arma retirada do esconderijo. Uma carta escrita por Dórea, onde relatava que policiais da Core teriam ficado com pelo menos 10 pistolas, desapareceu.

A quantidade exata de armas desviadas segue desconhecida. Mesmo assim, policiais envolvidos na apreensão receberam gratificações.

O que dizem os citados

  • Defesa de Nery: só se manifestará nos autos.
  • Defesa de Adisson: não comentará o caso.
  • Cabo Tibério: nega as acusações.
  • Douglas Piton (ex-Core): policiais prestaram depoimento como testemunhas e entregaram celulares voluntariamente.
  • Nilton Tormes: nega participação no desvio e a existência de um informante. Diz que não discutiu soltura de presos com Tibério.
  • Artur Gallas (Depom): afirma que a apuração está sob responsabilidade da Corregedoria.
  • Adailton Adam: diz que seu depoimento já foi prestado e que está em apuração.

A investigação continua sob responsabilidade da Corregedoria da Polícia Civil e do MP-BA.

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