Conversas por áudio envolvendo o policial civil Douglas Pithon, ex-coordenador da Coordenação de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil da Bahia, e um agente subordinado, indicam possível alinhamento de depoimentos prestados em uma investigação que apura um suposto esquema de desvio de armas.
O caso é alvo de inquérito conduzido pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) e pela Corregedoria da Polícia Civil, que investigam a participação de policiais no esquema durante o ano de 2024. A operação ocorreu em julho e terminou com a morte de duas pessoas — uma delas sem envolvimento com o crime.
Na época, a ação, conduzida pelo Departamento de Polícia Metropolitana (Depom) e pela Core, foi divulgada como uma das maiores apreensões de armas do ano. Entre o material recolhido, estavam uma submetralhadora, seis fuzis e mais de mil munições, localizados em um matagal de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, onde funcionaria um esconderijo de uma facção criminosa.
As investigações, que já duram mais de um ano, apontam que o número de armas apreendidas pode ter sido superior ao informado oficialmente. No entanto, a quantidade exata não foi confirmada até o momento.
Entre as provas reunidas pelo MP estão mensagens de Pithon para um colega da Core que esteve na operação. Em um dos áudios, ele alerta sobre a necessidade de prestar uma “oitiva relativamente diferente” da realizada anteriormente:
“Irmão, se ligue. Em relação àquelas armas… Doutor Tormes tá fazendo outro procedimento em Itinga, que é o de apreensão das armas. Aquela p**** que deu repercussão com a prisão dos policiais militares, que de alguma forma estavam revertendo pra Polícia Civil… Então a gente vai fazer uma oitiva relativamente diferente da feita com Adam”, diz Pithon.
O “Adam” citado é o delegado Adailton Adam, titular da Delegacia Antissequestro, que iniciou a apuração do caso e investigava a possível relação com as mortes de Joseval Santos Souza e seu enteado, Jeferson Sacramento Santos. Ambos foram levados para o local da operação e encontrados mortos dias depois.
Segundo as investigações, a ordem para um novo depoimento teria partido de Nilton Tormes, então coordenador do Depom, exonerado do cargo em março deste ano sob suspeita de envolvimento no esquema.
Sugestão de alinhamento
Ainda nas conversas, Pithon encaminha ao colega cópias do próprio depoimento e de outros agentes, sugerindo que lesse o material antes de assinar. Ele também afirma que tudo já estaria “acertado” com Arthur Gallas, diretor do Depom:
“Eu vou te mandar a sua oitiva e a de Teles, e vocês vão na delegacia de Itinga encontrar o doutor Tormes pra assinar. Já tá tudo alinhado com doutor Arthur e todo mundo”, disse.
O delegado Guilherme Pernambuco, titular de Itinga, declarou ao MP que recebeu o inquérito diretamente de Tormes, já com um documento pronto. Tormes, por sua vez, nega essa versão e afirma que Pernambuco acompanhou as oitivas da Core.
Delegado da Polícia Civil é investigado por envolvimento em desvio de fuzis apreendidos na Bahia — Foto: Reprodução
Posicionamentos
- Arthur Gallas informou, por nota, que Tormes coordenou a operação em julho de 2024 e que havia dúvidas sobre a área de responsabilidade — se da 23ª Delegacia de Lauro de Freitas ou da 27ª de Itinga. Segundo ele, todos os policiais foram ouvidos como testemunhas, e o inquérito concluiu que o material apreendido pertencia a um membro de facção criminosa. Disse ainda que orientou Pithon apenas para que os agentes fossem ouvidos também em Itinga, sem qualquer tipo de acordo.
- Douglas Pithon afirmou que o “alinhamento” citado referia-se apenas à definição de data, horário e local do depoimento, e que o segundo procedimento foi necessário devido a suposta “oitiva irregular” feita por Adam.
- Nilton Tormes reconheceu que houve troca da delegacia responsável pela investigação, mas negou que o inquérito tenha sido entregue pronto a Pernambuco.