A pele espessa do pirarucu, peixe amazônico antes ameaçado de extinção, hoje aparece transformada em bolsas e acessórios vendidos por milhares de reais em lojas do Brasil e até dos Estados Unidos. O material ganhou espaço na moda de luxo por ser considerado resistente, exótico e sustentável.

Projetos de manejo, autorizados pelo Ibama, permitem que apenas parte dos animais adultos seja capturada, o que ajudou a recuperar a espécie e garante renda a comunidades ribeirinhas. Marcas nacionais e internacionais divulgam esse modelo como exemplo de economia circular e preservação ambiental.

Mas, segundo pescadores e especialistas, os ganhos financeiros ainda não chegam de forma justa a quem garante a conservação.

Pedro Canízio, vice-presidente da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), conta que se surpreendeu ao ver o preço de uma bolsa de pirarucu em uma viagem ao Rio de Janeiro:

“O manejador não consegue comprar um produto desses. Trabalhamos muito, mas aqui o quilo do peixe inteiro é vendido a, no máximo, R$ 11”, afirma.

Estudo da Operação Amazônia Nativa (Opan) aponta que 95% das peles são comercializadas por frigoríficos e apenas 5% por associações comunitárias. O processo para transformar a pele em couro é complexo e exige tecnologia, o que limita a participação direta dos pescadores nessa etapa da cadeia.

Ainda assim, o manejo é visto como exemplo de atividade sustentável na Amazônia. A consultora Fernanda Alvarenga avalia que, entre todos os produtos da região, o pirarucu é o que mais combina conservação e benefícios socioeconômicos.

Nos últimos anos, algumas iniciativas locais buscaram valorizar o trabalho dos manejadores. A Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc), que representa 800 famílias, lançou a marca Gosto da Amazônia, voltada inicialmente para a venda da carne do peixe. A ideia é que, no futuro, o mesmo modelo possa ser aplicado também ao couro.

“Hoje o pescador recebe até 40% a mais pelo peixe do que na média regional. Queremos que isso se estenda também à pele, mas precisamos de políticas públicas que invistam em tecnologia e capacitação”, diz Ana Alice Oliveira de Britto, da Asproc.

Enquanto isso, grandes marcas seguem expandindo o mercado de luxo do pirarucu, destacando sua ligação com a sustentabilidade. Mas, para os manejadores, ainda falta o reconhecimento do seu papel na preservação e na cadeia produtiva.

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