No universo virtual do Habbo Hotel, comunidade online que atrai principalmente adolescentes, um grupo de usuários resolveu transformar o jogo em um palco para experimentar a política nacional. Ministérios, Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal (STF) e até a Presidência da República ganharam versões dentro da plataforma, reproduzindo debates, votações, decretos e até pedidos de impeachment.
O espaço, que normalmente funciona como um ambiente de interação e lazer, passou a ser usado como um RPG político, no qual são recriados elementos da vida pública. Os participantes elaboram uma “Constituição Federal” própria, adotam um “Código Penal” interno e até simulam o regimento do STF, com direito a julgamentos, habeas corpus, ações diretas de inconstitucionalidade e outras medidas jurídicas. Há ainda uma versão adaptada da OAB, chamada de “Ordem dos Advogados do Habbo”, para que os jogadores possam exercer funções de defesa em processos.
Os perfis de autoridades reais também são reproduzidos. Inspirados em nomes como o ministro Alexandre de Moraes e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), os jogadores interpretam governantes, ministros e parlamentares. Assim como no Brasil, o presidente virtual é responsável por indicar os integrantes da Suprema Corte, enquanto deputados e senadores podem apresentar projetos de lei e estão sujeitos a penalidades aplicadas pela Mesa Diretora.
Para o criador da iniciativa, o estudante John Hudson, o objetivo vai além da diversão.
“Quero mostrar que a política não é algo distante, mas algo que faz parte do nosso dia a dia. O RPG serve como ferramenta de aprendizado e diálogo, mostrando que todos podemos contribuir para uma sociedade mais justa, seja no jogo ou fora dele”, explica.
A ambientação também chama atenção: o Congresso do Habbo foi desenhado inspirado no projeto de Oscar Niemeyer, incluindo as torres icônicas da sede em Brasília.
Hudson destaca que a proposta tem atraído muitos adolescentes, despertando neles o interesse em entender o funcionamento do poder público.
“Quando apresentamos a política de forma simples e interativa, conseguimos aproximar os jovens do tema. É um espaço seguro para debater, errar, corrigir e aprender. Isso pode despertar um engajamento real no futuro”, comenta.
Julgamentos e Papuda virtual
A simulação chega a pontos curiosos: no game, parlamentares virtuais podem ser investigados pelo “Ministério Público Federal” e levados a julgamento no “STF” digital. Entre as punições previstas estão prisão preventiva, tornozeleira eletrônica e até o cumprimento de pena em uma versão adaptada da Papuda, cadeia famosa de Brasília.
Em setembro, por exemplo, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentará julgamento real no STF, dentro do Habbo um deputado virtual acusado de corrupção será julgado por conduta inadequada.
As eleições internas também movimentam a comunidade: usuários votam em seus candidatos para presidente, deputados e senadores, repetindo os ritos da política nacional.
Hudson se diz surpreso com o alcance da ideia.
“Achei que seria algo pequeno, mas a adesão foi enorme. Muita gente se envolve com seriedade, cria vínculos e organiza campanhas. As articulações em período eleitoral são tão intensas que, às vezes, parecem até com as de Brasília”, afirma.