O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) aumentou para 50 anos, 16 meses e 25 dias a pena de prisão do líder da Associação Sociedade Espírita Brasileira Amor Supremo (Sebas), Kléber Aran Ferreira da Silva, condenado pelos crimes de violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável. A decisão, que prevê regime fechado, atendeu a um recurso do Ministério Público da Bahia (MP-BA), que pediu a revisão da sentença inicial de 20 anos e 5 meses, proferida em novembro de 2024.

De acordo com o MP-BA, Kléber Aran cometeu abusos contra três seguidoras da associação espírita. Ele também foi condenado ao pagamento de indenização de R$ 50 mil para cada vítima. Os desembargadores reconheceram que uma das mulheres estava em condição de vulnerabilidade após ingestão de bebida alcoólica induzida pelo réu, configurando o crime de estupro de vulnerável. O acórdão destaca ainda o padrão de manipulação psicológica e espiritual exercido pelo acusado.

Entenda o caso

Conhecido por afirmar que incorpora o espírito do médico alemão Adolph Fritz, popularmente chamado de “Dr. Fritz”, Kléber Aran atraía fiéis em busca de cura espiritual. As investigações apontam que ele se valia da fragilidade emocional das seguidoras para cometer os abusos, convencendo-as de que relações sexuais eram necessárias para “fornecer energia” às entidades.

As vítimas relataram que eram coagidas a consumir bebidas alcoólicas, o que facilitava os crimes. A 4ª Vara de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Salvador, responsável pela primeira condenação, destacou que o líder religioso explorava a fé e a confiança das mulheres de forma contínua e planejada.

Denúncias e operação policial

As primeiras denúncias surgiram em 2020, quando o projeto “Justiceiras”, que combate a violência de gênero, encaminhou relatos à Ouvidoria do Conselho Nacional do Ministério Público. Em setembro daquele ano, o MP-BA recebeu informações de quatro pessoas — três delas mulheres de Salvador —, que narraram os abusos.

Em abril de 2021, a chamada “Operação Cristal” foi deflagrada pelo MP-BA em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e a 24ª Promotoria de Justiça de Salvador, cumprindo mandados de busca e apreensão. Segundo o órgão, os encontros ditos religiosos serviam, na prática, para a satisfação sexual do investigado, que mantinha as vítimas em silêncio por meio de ameaças físicas e psicológicas.

As mulheres apresentaram ainda áudios de conversas em aplicativos de mensagens, nos quais Kléber Aran reforçava a ideia de que elas haviam sido “escolhidas para guardar o Cristal”, um artifício usado para sustentar a manipulação. O MP-BA relata que, após os abusos, o líder espiritual submetia as vítimas a situações de humilhação, violência psicológica e até exploração financeira.

Mesmo diante das acusações, a defesa do réu negou as práticas criminosas.

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