Os policiais militares envolvidos na operação que resultou na morte de Caíque dos Santos Reis, de 16 anos, no bairro de São Marcos, em Salvador, foram afastados das funções de rua. A corporação confirmou a medida nesta quarta-feira (1º), informando que foi acionado o protocolo interno adotado em casos que envolvem ocorrências com vítimas fatais ou graves.

De acordo com a Polícia Militar, os agentes, lotados no Batalhão de Policiamento de Prevenção a Furto e Roubos de Coletivos (BPFRC), foram ouvidos individualmente e encaminhados ao Departamento de Promoção Social da PM, onde recebem acompanhamento psicológico e participam de atividades voltadas à valorização da vida. Eles seguem afastados das atividades operacionais até a conclusão das investigações.

As apurações estão sendo conduzidas em duas frentes: na esfera administrativa, pela Corregedoria-Geral da PM, sob comando do coronel Delmo, e na esfera criminal, pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil.

Protestos da comunidade

A morte de Caíque gerou uma série de protestos no bairro de São Marcos. Na terça-feira (30), moradores foram às ruas pelo terceiro dia consecutivo, carregando cartazes e pedindo justiça. No dia anterior, manifestantes chegaram a queimar entulho como forma de chamar atenção para o caso.

Por medida de segurança, a Secretaria de Mobilidade (Semob) informou que os ônibus não estão circulando dentro do bairro, passando apenas pela via regional. O policiamento foi reforçado na região desde segunda-feira (29).

O corpo do adolescente foi sepultado ainda na segunda-feira, em um cemitério na Baixa de Quintas. Segundo familiares, Caíque era estudante, trabalhava como barbeiro e começaria no mesmo dia um novo emprego como atendente de confeitaria.

Versão da família e testemunhas

A mãe de Caíque, Joselita dos Santos Cruz, disse em entrevista que o filho obedeceu à ordem policial de levantar as mãos, mas mesmo assim foi baleado. Ela nega que o adolescente tivesse qualquer envolvimento com a criminalidade.

“O menino estava andando e eles mandaram colocar as mãos para cima. Quando ele colocou, deram um tiro na perna dele. Depois levaram para um beco, deram vários tiros e disseram que foi troca de tiros”, afirmou, emocionada.

Uma testemunha, que preferiu não se identificar, confirmou a versão da mãe e disse ter visto um policial disparar contra o jovem após mandá-lo correr. Moradores também relataram que, durante os protestos, duas pessoas foram atingidas por balas de borracha.

Em vídeos que circulam nas redes sociais, é possível ver moradores chamando os policiais de “assassinos” enquanto jovens feridos eram carregados desacordados, enrolados em lençóis.

O que dizem as polícias

Em nota, a Polícia Militar informou que equipes do Batalhão Gêmeos faziam patrulhamento na Avenida Gal Costa quando receberam denúncia sobre homens armados na localidade conhecida como São Domingos. Durante a incursão, segundo a corporação, houve troca de tiros. Caíque e outro jovem, identificado como Matheus Daniel Chagas da Silva, 21 anos, foram baleados, socorridos ao Hospital Geral Roberto Santos, mas não resistiram.

Ainda conforme a PM, foram apreendidas uma pistola calibre 9mm, um revólver e porções de drogas, que foram encaminhadas ao DHPP. As armas usadas pelos policiais também foram entregues à perícia técnica.

A Polícia Civil reforçou a versão de que houve confronto e registrou a ocorrência no DHPP. Já a PM reiterou, em comunicado, que acompanha o caso por meio da Corregedoria e que todos os procedimentos serão investigados com “isenção e transparência”, em cooperação com os órgãos competentes.

Enquanto isso, entidades como a União de Negras e Negros pela Igualdade (Unegro) e representantes do Conselho Nacional dos Direitos Humanos se solidarizaram com a família e anunciaram que vão acompanhar o caso de perto.

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