Apesar do discurso de fortalecimento da segurança pública e das promessas de combate ao crime organizado, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um cenário preocupante no Nordeste, especialmente nos estados administrados por aliados petistas. A escalada da violência, o avanço das facções criminosas e o aumento das mortes provocadas por policiais têm colocado em xeque a efetividade das políticas de segurança defendidas pelo Planalto.
A Bahia e o Ceará, governados respectivamente por Jerônimo Rodrigues e Elmano de Freitas, tornaram-se símbolos de uma crise que o próprio governo federal tenta administrar com cautela, diante do risco de desgaste político às vésperas das eleições de 2026. Em ambos os estados, o crime organizado tem ampliado sua influência, enquanto a população convive com medo e descrença nas ações das autoridades.
Na Bahia, mesmo após duas décadas sob gestões do PT, o estado segue liderando o ranking nacional de mortes por intervenção policial, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. A recente operação contra o Comando Vermelho, elogiada por Lula por ter baixa letalidade, foi pontual e não reflete o cenário real das ruas. Especialistas apontam que as facções continuam controlando territórios e impondo regras em comunidades inteiras, o que revela a falta de continuidade e de planejamento nas ações de segurança.
O sociólogo Antonio Lima lembra que o modelo implantado pelo PT desde o governo de Jaques Wagner apostou na repressão ostensiva, mas sem investir de forma consistente em inteligência policial e prevenção. “O que se vê é uma polícia treinada para o confronto, sem estrutura suficiente para investigar e desarticular o crime de forma duradoura”, afirma. Ele critica ainda a falta de renovação de políticas públicas que poderiam reduzir a entrada de jovens nas facções.
O próprio discurso oficial do governador Jerônimo Rodrigues demonstra contradição. Enquanto Lula critica a “matança policial” em outros estados, Jerônimo tenta justificar os altos índices de letalidade sob a promessa de que o Estado “não quer matar, mas agir com firmeza”. Na prática, entretanto, a violência persiste e as comunidades mais pobres continuam sendo as mais afetadas.
No Ceará, a situação não é muito diferente. O governador Elmano de Freitas tem adotado um tom mais duro, defendendo abertamente que, em confrontos, “morra o bandido”. O posicionamento, embora popular entre parte do eleitorado, revela uma estratégia voltada mais ao discurso político do que a resultados concretos. O estado figura entre os três mais violentos do país e enfrenta a presença crescente do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC), que disputam o controle de áreas metropolitanas de Fortaleza.
Enquanto isso, o governo federal tenta criar uma “vitrine” para mostrar serviço. No Rio Grande do Norte, a gestão petista de Fátima Bezerra recebeu o projeto-piloto de “retomada de territórios”, coordenado pelo Ministério da Justiça em parceria com a USP. A iniciativa busca combinar ações policiais com oferta de serviços públicos em áreas dominadas pelo tráfico. Apesar do discurso otimista, especialistas alertam que o projeto é limitado e tem alcance restrito, servindo mais como ferramenta política do que como solução real para o problema da criminalidade.
Na prática, o Planalto tem se mostrado mais preocupado em unificar o discurso do que em enfrentar as causas profundas da violência. As reuniões entre o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e os secretários estaduais do Consórcio Nordeste resultaram em apoio à PEC da Segurança, mas sem a definição de metas claras ou investimentos robustos.
A tentativa de transformar operações pontuais em exemplos de sucesso não tem convencido a população, que continua refém da insegurança. O contraste entre o discurso e a realidade reforça a percepção de que o governo Lula ainda não encontrou um caminho efetivo para lidar com o avanço do crime organizado e com a falência de um modelo de segurança pública que, após quase 20 anos de domínio petista no Nordeste, segue sem entregar os resultados prometidos.