Um trecho do Anel de Contorno, em frente à sede da Companhia de Engenharia Hídrica e de Saneamento da Bahia (Cerb), voltou ao centro das críticas em Feira de Santana. O local, que há anos acumula queixas de abandono, tornou-se sinônimo de perigo para quem depende da Avenida Eduardo Fróes da Motta para chegar à UEFS, ao Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA) ou para seguir ao trabalho.

O cenário é conhecido: sem calçada, sem iluminação adequada e sem qualquer tipo de proteção lateral, pedestres acabam obrigados a disputar espaço com ônibus e caminhões que circulam em alta velocidade. No trecho onde a Cerb funciona, a situação se agravou com o avanço da vegetação e a falta de drenagem que, nos dias de chuva, transforma o caminho em uma mistura de lama, buracos e água parada.

“A gente anda praticamente na pista. Não existe espaço para pedestre”, relata um estudante que passa pelo local diariamente. “Quando chove, viram verdadeiras crateras cobertas d’água. Atravessar aqui é um sufoco”, completa.

Um corredor urbano tomado pela insegurança

Em horários de pico, o risco se multiplica. A movimentação intensa de veículos pesados coloca ainda mais pressão sobre quem precisa passar pelo trecho a pé. Mulheres que levam filhos à escola, funcionários do HGCA e idosos acabam expostos ao mesmo trajeto hostil, sem qualquer estrutura que garanta um mínimo de segurança.

À noite, o perigo é ainda maior. “Ficamos praticamente invisíveis. Só dá pra ser visto quando o farol do carro já está em cima”, descreve Ana Maria, que utiliza o trecho para chegar ao trabalho.

Mato, escuridão e lama: combinação de fatores que agrava o abandono

A área apresenta um conjunto de problemas que se somam:

  • Vegetação avançando sobre a pista, estreitando ainda mais o caminho;
  • Iluminação deficiente;
  • Acúmulo de água e ausência de drenagem;
  • Terreno irregular e sem pavimentação própria para pedestres.

Para o trabalhador Silvanei Santos, atravessar a região virou um exercício diário de sobrevivência:

“Já precisei me jogar na lama para não ser atingido por um caminhão. Aqui é perigoso de verdade”, resume.

Leis municipais determinam responsabilidade da Cerb

Apesar de antigo, o problema está diretamente ligado às normas municipais que tratam das calçadas em Feira de Santana. A Lei nº 3.245/2011 estabelece que o proprietário do terreno no caso, a Cerb  é responsável por construir e manter o passeio em condições adequadas, incluindo nivelamento, piso antiderrapante, acessibilidade e limpeza. O descumprimento pode gerar multa aplicada pela Secretaria de Serviços Públicos (SESP).

Outras normas, como o Estatuto do Pedestre (Lei nº 2.800/2007) e o Código de Obras, reforçam que áreas de grande circulação precisam ser planejadas com drenagem, sinalização e estrutura mínima para garantir a segurança de quem circula a pé.

Desgaste para o Governo do Estado

Por se tratar de um órgão estadual, a situação tem gerado desconforto político. A permanência da área degradada colide com o discurso do Governo da Bahia, especialmente pela ligação do governador Jerônimo Rodrigues, professor licenciado da UEFS com pautas ligadas à educação, bem-estar estudantil e segurança urbana.

A área, usada diariamente por universitários e por alunos de escolas próximas, acaba se transformando em um ponto que simboliza a distância entre o discurso oficial e a realidade encontrada nas ruas.

Moradores cobram intervenção urgente

A sensação de abandono tem provocado indignação. “Parece que essa parte da cidade foi esquecida. O mato cresce, a escuridão toma conta e quem anda a pé é quem paga o preço”, afirma o morador Antônio Brito.

As reivindicações incluem:

  • Calçada acessível e regularizada;
  • Ciclofaixa;
  • Melhoria da iluminação;
  • Drenagem eficaz;
  • Arborização planejada;
  • Sinalização e dispositivos de segurança.

Um ponto estratégico que não pode continuar ignorado

Localizada entre um dos principais hospitais da Bahia e um polo universitário, a área exige uma intervenção definitiva. O estado precário do entorno da Cerb passou do incômodo estético para uma ameaça direta à integridade física de quem utiliza o Anel de Contorno.

Enquanto o impasse se prolonga, trabalhadores, estudantes e pacientes seguem expostos ao risco diário, esperando que a situação finalmente receba a atenção que há décadas deveria ter sido dada.

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