Com a proximidade do Natal, o artista plástico Ladário Brites, morador de Salvador, chamou atenção ao transformar a própria sala em uma instalação que mistura tradição religiosa e crítica social. Em vez do cenário bíblico habitual, ele ambientou o presépio no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, palco de uma operação policial que deixou mais de 100 mortos em outubro.

Personagens clássicos Maria, José, o menino Jesus e os Reis Magos dividem espaço com policiais, moradores e suspeitos. Eles aparecem no meio de uma troca de tiros, diante de casas marcadas por impactos de bala.

Segundo Ladário, que é cristão e já viveu na região retratada, o objetivo é provocar reflexão.

“Quis mostrar que o nascimento de Jesus poderia acontecer em qualquer lugar vulnerável, como acontece com tantas famílias que convivem diariamente com o medo e a violência”, explicou.

Entre os elementos do presépio, um detalhe chama atenção: o rapper Oruam surge no canto esquerdo, em um pequeno palco. Ele foi incluído porque criticou a operação e lançou uma música sobre as mortes, faixa que integra a trilha sonora criada para a instalação, acompanhada por sons que simulam disparos.

“Uma operação eficiente prende quem precisa ser responsabilizado. O que vimos foi o contrário. Quero que as pessoas encarem essa realidade e reflitam”, afirmou o artista.

Ladário reproduziu vielas, escadarias, luzes, animais e moradores segurando cartazes com mensagens como “Chega de chacinas” e “Paz no Complexo da Penha”. Policiais aparecem com fardas escuras e armas pesadas; já os suspeitos surgem sem camisa e com cabelos coloridos.

A obra inclui cenas paralelas com significados simbólicos:

  • A fuga da Sagrada Família simboliza moradores que deixam suas casas para escapar da violência.
  • A Santa Ceia sobre a laje remete aos encontros de fim de semana nas comunidades.
  • Jesus adulto jogando futebol com crianças representa a ideia de acolhimento e ausência de julgamentos pela aparência.

A tradição dos presépios temáticos

Ladário já é conhecido por reinterpretar a cena do nascimento de Jesus. Em 2024, ele montou um presépio inspirado nas empresas e tecnologias de Elon Musk. Carros da Tesla substituíam os animais e a estrela de Belém foi representada por um drone. A trilha sonora, na época, chegou a incluir música criada com auxílio de inteligência artificial.

Para o artista, essas produções funcionam como parábolas visuais:

“Não faço presépios como adoração. Para mim, são ferramentas para transmitir ideias, sentimentos e questionamentos”, disse.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *