O desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, preso pela Polícia Federal na última terça-feira (16), foi encaminhado para custódia preventiva no Presídio Constantino Cokotós, em Niterói, unidade destinada a autoridades e agentes públicos com prerrogativa de função.
Na mesma penitenciária está detido o delegado da Polícia Federal Gustavo Stteel, alvo da Operação Zargun, que apura uma ampla rede de crimes envolvendo tráfico, corrupção e lavagem de dinheiro. A coincidência chama atenção porque ambos aparecem em desdobramentos das investigações que atingem o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, conhecido como TH Joias, além do presidente afastado da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar.
A transferência do magistrado ocorreu poucos dias após o presídio passar por uma grande revista administrativa, desencadeada por denúncias sobre o uso ilegal de celulares por detentos. A ação, realizada na segunda-feira anterior à prisão do desembargador, mobilizou equipes do sistema penitenciário e da inteligência estadual entre o início da manhã e o fim do horário matinal, abrangendo todos os pavilhões da unidade.
Durante as buscas, foram apreendidos 15 aparelhos celulares, sendo quatro iPhones, além de um roteador de internet, o que reforça a suspeita da existência de uma estrutura clandestina de comunicação dentro do presídio. Parte dos equipamentos estava escondida em áreas comuns e outra parte nos dormitórios de presos dos pavilhões 1 e 4. Todo o material foi recolhido, lacrado e encaminhado para análise da Subsecretaria de Inteligência do Sistema Penitenciário.
O papel do delegado
As investigações indicam que o delegado Gustavo Stteel, à época lotado na Polícia Federal do Aeroporto Internacional do Galeão, teria atuado para facilitar a movimentação do traficante Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, apontado como líder do tráfico em Duque de Caxias. O criminoso temia ser preso ao circular pelo aeroporto em viagens comerciais.
Conversas interceptadas pela Polícia Federal sugerem que Stteel teria influência suficiente para acompanhar o traficante desde a entrada no terminal até o embarque, oferecendo uma espécie de proteção informal em uma área considerada estratégica para a segurança nacional. Em uma das mensagens, um assessor de TH Joias relata que o delegado teria acesso livre para esse tipo de atuação.
Na fase mais recente da operação, além de Stteel, também foram presos Índio do Lixão e Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, conhecido como “Dudu”, apontado como intermediário do esquema. Ao todo, 12 pessoas foram detidas, suspeitas de integrar uma organização criminosa envolvida com tráfico de drogas e armas, corrupção e lavagem de dinheiro.
O avanço das investigações amplia o constrangimento institucional ao expor, mais uma vez, a proximidade entre agentes públicos e o crime organizado, um problema que insiste em desafiar o sistema de Justiça e a credibilidade das instituições no país.