Promessas de tratamento rápido, cura garantida e soluções milagrosas para doenças graves têm invadido as redes sociais e colocado milhares de pessoas em risco. Anúncios enganosos utilizam imagens, vídeos e até vozes de médicos, artistas e figuras públicas para dar aparência de credibilidade a fraudes ligadas à saúde.

Um levantamento realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisou cerca de 170 mil anúncios veiculados no Facebook e no Instagram. O resultado é alarmante: mais de 76% apresentavam algum tipo de informação enganosa. Entre os mais de 6 mil anúncios examinados com maior profundidade, aproximadamente 5 mil estavam relacionados a golpes na área da saúde.

De acordo com o estudo, os criminosos miram principalmente pessoas com doenças crônicas ou condições sensíveis, oferecendo supostos tratamentos para câncer, diabetes, emagrecimento rápido e disfunção erétil. Em grande parte dos casos, o anúncio leva a vítima diretamente para uma conversa no WhatsApp, onde a pressão para a compra é imediata.

“É um problema estrutural. Essas plataformas permitem anúncios baratos e altamente segmentados, o que facilita atingir exatamente o público mais vulnerável”, explica a pesquisadora Marie Santini, da UFRJ.

Famosos usados sem autorização

Para convencer o público, os golpistas recorrem ao uso indevido de nomes conhecidos. O médico Drauzio Varella aparece como o mais citado nas propagandas falsas identificadas pela pesquisa. Segundo ele, foi necessário recorrer à Justiça contra a Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e WhatsApp, para tentar conter a disseminação dos anúncios.

Drauzio relata que, além do uso de imagens, criminosos têm recorrido à inteligência artificial para simular sua voz em vídeos falsos, promovendo medicamentos sem qualquer registro oficial. “Há até cursos na internet que ensinam como clonar voz e imagem para aplicar esse tipo de golpe”, alerta.

Além dele, atrizes, cantores e autoridades da área da saúde também aparecem entre os nomes mais explorados, sempre sem autorização.

Perigo além do prejuízo financeiro

Especialistas reforçam que o impacto desses golpes vai muito além da perda de dinheiro. O consumo de produtos sem comprovação científica pode agravar doenças, atrasar tratamentos adequados e colocar vidas em risco.

“Estamos falando de um crime extremamente grave. Explorar a fragilidade de quem está doente é algo inadmissível”, afirma Neuton Dornellas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Falta de controle e anúncios recorrentes

O estudo aponta ainda que muitos anúncios enganosos permanecem ativos por longos períodos, alguns por mais de dois anos. Quando um é removido, versões semelhantes surgem rapidamente no lugar.

“É um conteúdo pago. Alguém está lucrando com isso”, ressalta a pesquisadora da UFRJ.

Resposta da Meta

Em nota, a Meta afirmou que os golpes online têm se tornado mais sofisticados e que a empresa vem ampliando esforços para combatê-los. A companhia informou que testa tecnologias como reconhecimento facial, reforça políticas contra fraudes e oferece ferramentas de segurança e alertas aos usuários.

Enquanto isso, especialistas reforçam a necessidade de atenção redobrada da população e cobram maior responsabilidade das plataformas digitais para impedir que anúncios fraudulentos continuem circulando livremente.

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