Uma investigação que começou a partir de um atropelamento em Belém acabou abrindo uma crise sem precedentes no sistema de Justiça do Pará. O caso, ocorrido no fim da madrugada, foi registrado por câmeras de segurança e mostrou um homem sendo atingido por um carro enquanto se exercitava em uma ciclofaixa. A vítima sobreviveu, o motorista foi identificado e o episódio ganhou repercussão. O que ninguém imaginava é que o inquérito serviria como porta de entrada para a apuração de um suposto esquema de corrupção envolvendo agentes públicos de alto escalão.

A denúncia foi revelada em reportagem exibida no programa Fantástico e tem como base uma investigação do Ministério Público do Pará. Segundo os promotores, desde 2021 funcionaria uma rede clandestina formada por um delegado da Polícia Civil, um promotor de Justiça e um juiz, que negociariam decisões e encaminhamentos processuais mediante pagamento de propina. Internamente, o grupo teria criado uma espécie de “justiça paralela”.

No episódio do atropelamento, uma parente do motorista reconheceu o delegado responsável pelo inquérito ao vê-lo na televisão. Em mensagem de áudio enviada a Arthur Afonso Nobre de Araújo Sobrinho, ela afirma conhecer a família dele e relata que policiais estariam cobrando dinheiro para amenizar a situação do condutor envolvido no acidente. Segundo a mulher, o valor pedido teria chegado a R$ 25 mil.

Gravações reunidas na investigação mostram o delegado negando, em conversa direta com a parente, qualquer tipo de extorsão. No entanto, em áudios obtidos pelo Ministério Público, surgem referências explícitas a cobranças e valores. Em uma das gravações atribuídas a Arthur Nobre, ele afirma: “Quem paga mal, paga duas vezes”. Em outro trecho, diz que não se comprometeria por quantias consideradas baixas.

 

As apurações indicam que o delegado mantinha contato frequente com seu superior à época, o então diretor metropolitano da Polícia Civil, Carlos Daniel Fernandes de Castro. Em mensagens trocadas entre os dois, há comentários que, segundo os investigadores, sugerem ganhos ilícitos relacionados à atuação policial. Em um diálogo, o diretor ironiza dizendo que estaria “cansado, mas disposto a roubar alguém”, frase que reforçou as suspeitas levantadas pelo MP.

Ainda de acordo com a investigação, a transferência do delegado para outra unidade, em agosto de 2023, foi tratada internamente como oportunidade de arrecadação. Em áudios, um escrivão afirma que o novo local seria “o lugar certo” para atuar “sem bronca”, enquanto mensagens trocadas entre os envolvidos indicariam naturalização da prática de corrupção.

O Ministério Público também aponta a participação de integrantes da própria instituição. Um dos citados é o promotor Luiz Márcio Teixeira Cypriano, da 2ª Promotoria de Controle Externo da Atividade Policial. Conversas analisadas indicam combinação prévia de ações, escolha de alvos e repasses de dinheiro. Em janeiro de 2024, o delegado teria informado ao promotor que levaria “mais três”, expressão que, segundo a apuração, se referia a R$ 3 mil em dinheiro.

Para os investigadores, o caso do atropelamento ilustra o funcionamento do suposto esquema. O delegado teria enviado o vídeo do acidente ao promotor, que formalizou um pedido de abertura de inquérito para dar aparência de legalidade, mesmo com questionamentos sobre a jurisdição. A partir daí, Arthur Nobre assumiu o caso e, conforme o MP, iniciou a cobrança da quantia exigida.

As suspeitas avançaram até o Judiciário. O Tribunal de Justiça do Pará investiga a conduta do juiz Jackson José Sodré Ferraz. Entre os episódios citados está a operação “Truque de Mestre”, deflagrada em 2023 contra influenciadores digitais suspeitos de promover jogos de azar. Segundo a investigação, durante um plantão, o magistrado autorizou buscas e prisões temporárias a pedido do delegado, com parecer favorável do promotor investigado.

Uma das presas na operação, a influenciadora Noelle Araújo, afirmou em entrevista que teria desembolsado R$ 500 mil para tentar resolver sua situação judicial, valor que, segundo ela, foi cobrado por um advogado. A apuração indica ainda que um dos possíveis intermediários dos repasses seria Caio Ferraz, filho do juiz.

Atualmente, os investigados estão afastados de suas funções, mas continuam recebendo salários. O delegado Arthur Nobre, que já foi preso três vezes, responde a processos em liberdade e recebe cerca de R$ 28 mil mensais; sua defesa informou que se manifestará nos autos. O promotor Luiz Márcio, afastado do cargo, recebe aproximadamente R$ 68 mil e, por orientação da defesa, não comentou o caso. Já Carlos Daniel Castro também foi afastado, e seus advogados afirmam que analisam o processo de forma criteriosa antes de qualquer manifestação pública.

O caso segue em apuração e expõe fragilidades graves nos mecanismos de controle das instituições responsáveis por garantir a legalidade e a justiça no estado.

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