O uso das chamadas “canetas emagrecedoras” ganhou espaço no dia a dia dos brasileiros e virou pauta em consultórios, redes sociais e até em conversas informais. Apesar da visibilidade e do avanço no tratamento com substâncias como semaglutida e tirzepatida, os números da obesidade continuam em alta, levantando um questionamento inevitável: por que a doença segue crescendo mesmo com mais opções terapêuticas?

Dados recentes da operadora Omint Saúde indicam que a obesidade entre adultos aumentou cerca de 9% nos últimos cinco anos. O dado chama ainda mais atenção ao considerar que houve avanço de 5% apenas entre 2023 e 2024, período marcado justamente pela maior adesão aos novos medicamentos.

Embora à primeira vista pareça um contrassenso, especialistas apontam que o cenário é mais complexo. Parte desse crescimento pode estar relacionada ao aumento da procura por diagnóstico e tratamento. Com a popularização dos remédios, mais pessoas passaram a buscar atendimento médico, o que ampliou a identificação de casos que antes estavam fora das estatísticas.

Na prática, isso significa que muitos pacientes já conviviam com a obesidade, mas sem acompanhamento ou registro clínico. Ainda assim, essa explicação não dá conta de todo o problema.

Médicos alertam que a obesidade está diretamente ligada ao estilo de vida atual. A rotina moderna, marcada por alimentação baseada em produtos ultraprocessados, sedentarismo, excesso de telas, noites mal dormidas e altos níveis de estresse, cria um ambiente propício ao ganho de peso.

Esse conjunto de fatores interfere diretamente nos mecanismos do corpo que regulam fome e saciedade, além de impactar o comportamento alimentar. Ou seja, o desafio vai muito além da dieta.

Outro ponto destacado por especialistas é a necessidade de mudar a forma como a obesidade é encarada. A condição não é resultado apenas de hábitos individuais, mas envolve alterações hormonais, metabólicas e neurológicas. Com o avanço da doença, o organismo tende a “defender” um determinado peso, dificultando a perda e favorecendo a recuperação dos quilos eliminados.

Os novos medicamentos representam, sim, um avanço importante. Eles atuam no controle do apetite e ajudam no tratamento, principalmente em pacientes com outras doenças associadas. No entanto, não funcionam de forma isolada.

O controle da obesidade depende de um conjunto de medidas, que inclui acompanhamento médico, reeducação alimentar, prática regular de atividade física, melhora na qualidade do sono e controle do estresse.

Apesar disso, manter esse cuidado contínuo ainda é um desafio para grande parte da população, seja por falta de acesso, custo ou dificuldade de adesão ao tratamento a longo prazo.

Enquanto isso, os dados seguem preocupantes. Informações do Ministério da Saúde mostram que a obesidade no Brasil mais do que dobrou desde 2006, atingindo 25,7% dos adultos em 2024. Quando somado ao sobrepeso, o número alcança mais de 60% da população adulta.

A popularização das canetas trouxe o tema para o centro do debate, mas especialistas reforçam: não existe solução simples para um problema que envolve fatores biológicos, comportamentais e sociais.

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