Diante de uma crise financeira prolongada, os Correios anunciaram um plano amplo de reestruturação que prevê o fechamento de cerca de mil agências próprias em todo o Brasil e a redução significativa do quadro de funcionários por meio de programas de demissão voluntária. A estratégia busca conter prejuízos bilionários acumulados nos últimos anos e redesenhar o papel da estatal no mercado logístico.
A medida atinge aproximadamente 16% das unidades administradas diretamente pela empresa. Hoje, os Correios mantêm cerca de 6 mil agências próprias e outros 10 mil pontos de atendimento operados por parceiros. Segundo a direção, a redução da rede física deve gerar uma economia imediata de R$ 2,1 bilhões.
Apesar do corte, a estatal afirma que o atendimento à população não será comprometido. O presidente da empresa, Emmanoel Rondon, garantiu que a reorganização levará em conta a obrigação legal de manter o serviço postal em todo o território nacional, inclusive em regiões onde não há interesse comercial da iniciativa privada.
Demissões voluntárias e revisão de benefícios
O plano de ajuste também prevê a diminuição expressiva das despesas com pessoal, consideradas hoje o principal gargalo financeiro da empresa. Estão previstos dois Programas de Demissão Voluntária, um em 2026 e outro em 2027, com potencial de adesão de até 15 mil empregados.
A expectativa é que, somadas às mudanças nos benefícios, as despesas com a folha sejam reduzidas em cerca de R$ 2,1 bilhões por ano. Entre os pontos em revisão estão os planos de saúde e de previdência complementar, que, segundo a gestão, se tornaram incompatíveis com a atual capacidade financeira da estatal.
Rombo financeiro e busca por fôlego no caixa
Os números ajudam a dimensionar a gravidade do cenário. Apenas nos nove primeiros meses de 2025, os Correios acumularam prejuízo de R$ 6 bilhões. O patrimônio líquido da empresa também está negativo, chegando a R$ 10,4 bilhões.
Para manter a operação, a estatal recorreu recentemente a um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras. Ainda assim, a direção admite que será necessário captar mais R$ 8 bilhões para equilibrar as contas ao longo de 2026.
Outra frente do plano envolve a venda de imóveis considerados não essenciais, com previsão de arrecadação de R$ 1,5 bilhão.
Mudança de modelo e possível abertura de capital
Além do ajuste operacional, os Correios avaliam mudanças estruturais mais profundas. A partir de 2027, a empresa estuda alterar seu modelo societário, hoje totalmente estatal. Uma das possibilidades em análise é a abertura de capital, transformando a companhia em uma empresa de economia mista, nos moldes de outras grandes estatais brasileiras.
Crise que vai além do Brasil
A direção dos Correios atribui parte das dificuldades à transformação do setor postal em nível global. A queda no envio de cartas, provocada pela digitalização das comunicações, reduziu drasticamente uma das principais fontes de receita histórica da empresa. Ao mesmo tempo, o avanço do comércio eletrônico aumentou a concorrência no segmento de encomendas.
Segundo Rondon, o problema não é exclusivo do Brasil. Ele citou serviços postais de outros países que também operam no prejuízo, como o dos Estados Unidos, que enfrenta déficits bilionários.
Mesmo diante do cenário adverso, a gestão afirma que o objetivo da reestruturação vai além do equilíbrio financeiro. A ideia, segundo a empresa, é garantir a sobrevivência dos Correios como instrumento estratégico do Estado, responsável por integrar regiões onde o mercado privado não atua.