O primeiro dia útil do ano em Turilândia, no interior do Maranhão, foi marcado por uma cena incomum. A sede da prefeitura estava aberta, mas praticamente vazia. Dentro do prédio, a rotina administrativa havia sido interrompida. Um vigia confirmou à reportagem que não havia expediente regular. Situação semelhante foi registrada na Câmara Municipal, onde funcionários evitaram conversar e deixaram o local rapidamente.

O esvaziamento é reflexo direto de uma operação do Ministério Público do Maranhão que atingiu em cheio o comando político do município. Na semana do Natal, foram presos o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os 11 vereadores da cidade. Ao todo, 21 pessoas acabaram detidas.

Segundo o Ministério Público, o grupo integra um esquema de corrupção que teria desviado pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos desde 2021, ano em que Paulo Curió assumiu o primeiro mandato. As investigações apontam a existência de uma organização estruturada para fraudar licitações, usar empresas de fachada, emitir notas fiscais falsas e distribuir propina.

De acordo com o promotor Fernando Berniz, do Gaeco, o esquema estava disseminado na administração municipal. Em depoimento, a própria pregoeira da prefeitura teria afirmado que cerca de 95% das licitações eram manipuladas. Áudios interceptados mostram cobranças diretas ao prefeito por “recompensas” em troca da participação nas fraudes, incluindo pedidos de presentes pessoais.

Conforme o MP, empresários envolvidos recebiam até 18% do valor dos contratos sem que os serviços fossem executados. Parte do dinheiro ficava com operadores financeiros e o restante retornava ao prefeito. O ex-controlador-geral do município, Wandson Barros, é apontado como responsável por operacionalizar os repasses.

Durante o cumprimento dos mandados, a polícia apreendeu grandes quantias em dinheiro vivo e chamou atenção para o patrimônio do casal Curió. Entre os bens, estão imóveis de alto padrão, incluindo uma residência em São Luís avaliada em cerca de R$ 3,7 milhões. Segundo os investigadores, a compra teria sido viabilizada com recursos emprestados por um agiota que também atua como médico.

Mensagens de áudio reforçam as suspeitas. Em uma delas, o prefeito reclama do limite de um cartão de crédito vinculado a uma empresa contratada pela prefeitura. Em outra gravação, fala sobre “sobras” mensais de dinheiro, valores que se aproximam do montante que, segundo o MP, teria sido distribuído aos vereadores para garantir que não houvesse fiscalização: cerca de R$ 2,3 milhões.

A origem do esquema, conforme a investigação, está em um posto de combustíveis pertencente à ex-vice-prefeita e ao marido. Apesar de contratos milionários para fornecimento de combustível, o consumo real não correspondia ao volume pago. Desde 2021, o estabelecimento firmou 58 contratos com a prefeitura e recebeu mais de R$ 17 milhões.

Os dados levantados indicam que a quantidade registrada permitiria que a frota municipal percorresse centenas de quilômetros por dia, algo incompatível com a realidade local. Enquanto isso, a população convive com problemas básicos. Informações do IBGE apontam que cerca de 75% dos moradores não têm acesso a esgotamento sanitário adequado.

Durante a apuração do caso, equipes de reportagem relataram episódios de intimidação por apoiadores do prefeito, com buzinaços e acompanhamento constante, inclusive em visitas a equipamentos públicos como o hospital da cidade, mantido majoritariamente com recursos do governo estadual.

Diante da ausência de prefeito, vice e vereadores em liberdade, a Justiça adotou uma medida atípica para evitar a paralisação administrativa. Os vereadores permanecem em prisão domiciliar e podem despachar em situações excepcionais, desde que não haja comunicação entre eles sem autorização judicial.

Em nota, a defesa de Paulo Curió e da primeira-dama informou que ambos estão à disposição das autoridades e confiam no respeito às garantias legais. A defesa de Wandson Barros declarou acreditar que a análise dos fatos comprovará sua inocência. Os demais citados não se manifestaram.

Para o Ministério Público, o caso expõe um quadro grave de desvio de recursos essenciais. “O dinheiro que deveria ser destinado à saúde, à educação e ao saneamento foi usado para benefício pessoal”, afirmou o promotor.

Entre os moradores, o sentimento é de indignação. “É uma cidade pequena, humilde. O que faltava aqui não era dinheiro, era respeito”, resumiu uma moradora.

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