Uma nova modalidade de fraude tem atingido milhares de pessoas com processos judiciais em andamento no Brasil. Conhecido como golpe do falso advogado, o esquema consiste em criminosos que se passam por advogados para prometer a liberação de benefícios ou indenizações, exigindo pagamentos adiantados. Só nos últimos três anos, o prejuízo causado já ultrapassou R$ 2,8 bilhões.

O golpe tornou-se cada vez mais sofisticado. Quadrilhas obtêm credenciais de advogados para acessar sistemas eletrônicos da Justiça, onde grande parte dos processos tramita. De acordo com Ana Tereza Basílio, presidente da OAB-RJ, 99,9% dos processos são digitais. Em processos que não correm em segredo de justiça, dados como e-mails e números de telefone ficam visíveis, permitindo que os criminosos saibam quanto cada vítima deve receber e direcionem a fraude de forma precisa.

O servidor público Gilberto Alves, de Brasília, relatou ter sido vítima do golpe. Ele recebeu uma mensagem no WhatsApp com a foto de seu advogado verdadeiro. “A mensagem dizia que tínhamos ganhado a causa”, contou. O golpista exigiu um pagamento imediato de quase R$ 2 mil para “liberar” o valor. Somente após efetuar o depósito, Gilberto percebeu que o número de telefone não correspondia ao de seu advogado.

No Rio Grande do Sul, uma aposentada perdeu R$ 255 mil em um caso semelhante. Ela esperava receber cerca de R$ 7 mil de pensão por morte do marido, mas acabou depositando pequenas quantias em diversas ocasiões para uma falsa advogada chamada “Doutora Leandra”. Ao todo, a aposentada fez cerca de nove depósitos, perdendo toda sua reserva. A advogada verdadeira, Leandra Wichmann, informou que os golpistas utilizaram imagens da procuração obtidas nos sistemas da Justiça Federal e criaram documentos falsos para dar aparência de legitimidade ao golpe.

Segundo o delegado João Vitor Herédia, credenciais de advogados são vendidas na internet, algumas por apenas R$ 200, e permitem que os criminosos acessem dados sigilosos, aumentando a credibilidade da fraude. A polícia investiga conexões do golpe com organizações criminosas. Em julho, Henrique “Oliver” Vargas da Silva foi preso no Espírito Santo, acusado de fornecer logins e senhas para as quadrilhas.

Com a evolução da tecnologia, os criminosos passaram a usar inteligência artificial para reforçar a fraude, incluindo clonagem de voz de advogados e simulação de números de telefone reais, alerta Ana Tereza Basílio.

Para reforçar a segurança, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou que, a partir de novembro, o acesso às plataformas digitais da Justiça exigirá autenticação adicional, semelhante à usada por bancos. João Paulo Schoucair, conselheiro do CNJ, afirma que o sistema é “seguro” e vai além do simples login e senha, usando autenticação via dispositivo móvel.

Advogados e especialistas recomendam cautela. O principal alerta é nunca confiar em mensagens ou chamadas não confirmadas. “Recebeu algum contato? Ligue diretamente para o seu advogado”, orienta Leandra Wichmann. Eduardo Gasiglia reforça que pressa é um indicativo de golpe: “Processos judiciais levam meses, às vezes anos. Qualquer urgência é suspeita”.

Outro ponto crucial é a forma de pagamento. O Judiciário não utiliza PIX ou boletos para liberar valores. O dinheiro é depositado em juízo e só é liberado ao beneficiário por meio de alvará judicial. A recomendação final é: nunca clique em links ou faça pagamentos sem confirmar diretamente com seu advogado, usando um contato confiável.

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