Em plena era dos smartphones ultraconectados, um aparelho considerado ultrapassado está ganhando espaço novamente entre os jovens: o iPod. Lançado pela Apple há mais de 20 anos, o antigo tocador de música voltou à rotina da Geração Z como alternativa para quem busca ouvir músicas sem interrupções de notificações, redes sociais e algoritmos.

O cenário lembra os anos 2000: fones com fio, músicas baixadas manualmente e aparelhos dedicados apenas ao áudio. Mas, em 2026, a retomada do iPod tem menos relação com nostalgia e mais com a tentativa de reduzir o excesso de estímulos provocado pelos celulares.

Jovens que adotaram novamente o aparelho afirmam que o smartphone passou a atrapalhar tarefas simples do dia a dia, como estudar, treinar ou até caminhar ouvindo música. A ausência de notificações é apontada como o principal motivo para a troca.

Especialista em produtos da Apple, Filipe Esposito afirma que ainda existe uma comunidade ativa dedicada à restauração de modelos antigos do iPod, com troca de baterias e ampliação de armazenamento. Segundo ele, muitos usuários mantêm os aparelhos tanto pelo valor afetivo quanto pelo uso prático no cotidiano.

O movimento também já aparece no mercado de usados. Dados de plataformas de venda mostram crescimento na procura pelos dispositivos antigos. O Enjoei registrou aumento de 47% no valor total de vendas de iPods no primeiro trimestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado. Já a OLX informou que as buscas pelo aparelho cresceram quase 19% em abril deste ano em relação a abril de 2025.

A publicitária Lisandra Reis, de 29 anos, conta que voltou a usar um iPod Touch para evitar distrações durante corridas ao ar livre.

“Quando saía para correr, qualquer notificação já tirava meu foco. Com o iPod, consigo apenas ouvir música e continuar o treino sem interrupções”, relata.

A situação é parecida com a de Emanuelle Assunção, de 27 anos, que utiliza o aparelho em treinos, leituras e deslocamentos diários. Ela comprou um modelo usado em 2024 e precisou voltar a transferir músicas manualmente do computador após aplicativos de streaming deixarem de funcionar no dispositivo.

Para muitos usuários, justamente esse processo considerado “antigo” virou parte da experiência. O estudante Cláudio Wollace, de 26 anos, diz preferir escolher manualmente as músicas que deseja ouvir, sem depender de recomendações automáticas.

“É um aparelho feito só para música. Não tem notificações, não tem distrações. Isso muda totalmente a forma como eu escuto minhas playlists”, afirma.

Cláudio também admite ter uma ligação emocional com o dispositivo. Segundo ele, o iPod era um objeto de desejo na adolescência, mas só conseguiu comprar um modelo anos depois. Hoje, sonha em adquirir um iPod Classic, considerado um dos modelos mais icônicos da linha.

A volta do aparelho acontece em meio ao crescimento de movimentos que defendem uma relação mais equilibrada com a tecnologia. Entre os jovens, cresce o interesse por dispositivos mais simples e experiências digitais menos dependentes de telas, notificações e redes sociais.

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