Uma força-tarefa deflagrada nesta quinta-feira (11) mobilizou equipes policiais em seis estados e terminou com a prisão de 34 pessoas apontadas como integrantes de uma ampla rede criminosa envolvida em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, crimes patrimoniais e disputa de áreas de atuação.
A ação batizada de Operação Zimmer é conduzida pelo Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), da Polícia Civil da Bahia, com apoio das polícias Militar e Federal. Mandados foram cumpridos na Bahia, Sergipe, Espírito Santo, São Paulo, Santa Catarina e Pernambuco.
Entre os detidos está o capitão da Polícia Militar Mauro Grunfeld, já investigado em outras etapas da operação por suspeita de participação em um esquema de comércio ilegal de armas que abastecia facções baianas.
O capitão da Policia Militar Mauro Grunfeld é um dos alvos presos — Foto: Reprodução/Redes sociais
Mandados e bloqueio de bens
Segundo a Polícia Civil, as equipes foram às ruas para cumprir 50 mandados de busca e apreensão e 43 ordens de prisão. A Justiça também determinou o bloqueio de R$ 100 milhões e o sequestro de bens vinculados aos investigados.
Na Bahia, as ações se concentraram em bairros de Salvador como Graça, Engomadeira, São Marcos e Stella Maris e nas cidades de Camaçari, Lauro de Freitas, Feira de Santana e Porto Seguro.
As investigações ganharam força após, em outubro de 2023, três pessoas serem flagradas com quase uma tonelada de entorpecentes. Parte da droga estava em um hotel de luxo na Avenida Tancredo Neves, em Salvador, e outra parte em um condomínio de alto padrão em Jauá, Camaçari.
Estrutura da organização
Os levantamentos da polícia identificam uma organização com divisão clara de funções: desde o recebimento e preparo das drogas até estratégias para ocultar valores obtidos com o tráfico. Pessoas físicas e empresas eram utilizadas para mascarar a origem dos recursos movimentados.
Conversas interceptadas reforçam suspeitas contra capitão da PM
O capitão Mauro Grunfeld, que já havia sido detido preventivamente em maio deste ano, voltou a ser alvo da operação. Trechos de diálogos atribuídos a ele e obtidos pela investigação indicam negociações de armas e munições com outro policial militar, identificado como Gleybson Calado do Nascimento.
Mensagens analisadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal mostram pedidos, ofertas e pagamentos envolvendo armamentos, alguns com destino a traficantes do bairro do Calabar, em Salvador.
Grunfeld nega irregularidades e sustenta que adquiria armas para uso pessoal.
A análise financeira aponta que, entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2022, o capitão teria transferido R$ 87.330 para Gleybson. A movimentação total do grupo entre 2021 e 2023 se aproxima de R$ 10 milhões.
Durante a busca na residência de Grunfeld, em Salvador, policiais encontraram uma pistola sem registro, o que levou a uma prisão em flagrante.
Como funcionava o esquema de armas
A investigação também mapeou a participação de policiais da Bahia e Pernambuco, CACs (colecionadores, atiradores e caçadores) e lojistas. O grupo teria se especializado em:
•Reter armas apreendidas em operações, sem apresentá-las às delegacias;
•Repassá-las posteriormente a facções;
•Usar “laranjas” para tirar o Certificado de Registro (CR) necessário para compra de armas;
•Simular furtos das armas recém-adquiridas, evitando rastreamento;
•Raspar ou alterar numeração de armamentos em casos excepcionais.
Padrão de vida e rendimento
Apesar de declarar renda fixa de cerca de R$ 8 mil e possuir apenas um apartamento avaliado em R$ 700 mil e R$ 20 mil em poupança, Grunfeld exibiu nas redes sociais um estilo de vida considerado incompatível com os rendimentos declarados, com viagens internacionais, passeios em iates e frequentação de restaurantes de alto padrão.
Liberdade provisória e pendências judiciais
Na fase anterior da operação, o Ministério Público da Bahia não identificou elementos suficientes para apontar vínculo direto do capitão com organização criminosa e se posicionou pela liberdade provisória mediante fiança. A Justiça acatou, mas ele permaneceu custodiado por causa de um mandado de prisão preventiva já expedido.
Grunfeld também responde a um inquérito sobre uma morte registrada durante ação policial em 2013, quando era tenente em Santa Cruz Cabrália. A apuração, entretanto, enfrenta atrasos e pendências desde então.