Dados recentes da Polícia Federal revelam que cerca de 50% das armas em posse de Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs) no país são de uso restrito. O controle e registro desse acervo passaram a ser responsabilidade da PF em 1º de julho deste ano, substituindo a gestão anterior do Exército.

No primeiro mês sob a nova administração, a corporação disponibilizou em seu site uma ferramenta de consulta que permite verificar informações por estado, categoria e tipo de armamento registrado. No caso específico dos CACs, o sistema apresenta um panorama geral atual, mas não oferece histórico detalhado sobre a evolução anual do número e do tipo de armas.

Segundo os dados, há aproximadamente 1,5 milhão de armas registradas nessa categoria, com 978 mil CACs ativos no país. Desse total, 755 mil são classificadas como de uso restrito — o equivalente a pouco mais da metade.

Entre elas, as pistolas calibre 9mm se destacam: são cerca de 461 mil unidades. Esse modelo, antes restrito, foi liberado durante o governo Jair Bolsonaro (PL) e voltou a ter restrição no atual governo. Há ainda registros mais incomuns, como mil metralhadoras, 16 canhões e seis morteiros.

Para o especialista em controle de armamentos e conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Roberto Uchôa, a flexibilização das regras entre 2019 e 2023 transformou o perfil das armas em circulação no Brasil.

“A liberação ampliou o acesso a calibres mais potentes e aumentou o número de pistolas em circulação, elevando o poder de fogo da população civil”, avalia.

Antes desse período, predominavam entre os CACs revólveres como os calibres .38 e .380. Atualmente, as demais 752 mil armas registradas como de uso permitido são, em grande parte, carabinas ou fuzis calibre .22 (212 mil) e espingardas calibre 12 (159 mil).

Pistola 9mm ultrapassa o revólver calibre .38

Estudo divulgado em maio já havia apontado que a 9mm se tornou a arma mais popular do país, superando o tradicional revólver .38. A venda do modelo foi permitida durante todo o governo Bolsonaro e proibida novamente em janeiro de 2023.

Além do crescimento nas vendas legais, o calibre também ganhou espaço no mercado ilegal. Em 2018, apenas 11 pistolas 9mm haviam sido apreendidas no país, contra 1.176 revólveres .38. Já em 2024, esse número saltou para 1.377 apreensões de 9mm, superando com folga o .38.

A popularidade se explica, em parte, por suas características: capacidade para 12 a mais de 20 disparos por carregador, maior rapidez entre tiros devido ao uso de pente em vez de tambor, quase o dobro da potência de uma pistola .380 e projéteis de formato cônico, com maior poder de penetração.

Uchôa resume o fenômeno:

“O calibre 9mm era tão restrito que, por muito tempo, apenas a Polícia Federal e as Forças Armadas tinham acesso. Quando liberado, a demanda reprimida fez com que se tornasse, rapidamente, o mais vendido do país.”

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