A Polícia Federal detalhou nesta semana o funcionamento de um esquema que produzia e distribuía medicamentos para emagrecimento de forma irregular, movimentando altos valores e envolvendo profissionais conhecidos do público. A investigação revelou desde clínicas em áreas nobres até deslocamentos em jatinho particular e o uso de uma ilha paradisíaca como centro de “formação”.
Médico influenciador no foco das apurações
Entre os investigados está o médico baiano Gabriel Almeida, figura popular nas redes sociais e apresentador frequente de conteúdos sobre obesidade e emagrecimento. Com uma rotina marcada por viagens em aeronave própria, Almeida se define como palestrante, empresário e formador de médicos.
A substância mais citada nas prescrições atribuídas a ele é a Tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, um dos medicamentos mais disputados atualmente no tratamento da obesidade. No Brasil, apenas um laboratório possui autorização da Anvisa para produzir o composto em escala industrial. Farmácias de manipulação podem trabalhar com doses individualizadas, desde que voltadas a pacientes específicos.
Segundo a PF, esse procedimento não era seguido: lotes inteiros teriam sido fabricados sem identificação de pacientes e em quantidades incompatíveis com a manipulação personalizada.
“Você não chega a uma farmácia de manipulação esperando encontrar estoques enormes ou milhares de frascos preparados sem destinatário definido”, explicou a perita criminal federal Diana Neves.
Mandados, clínicas e laboratório alvo da operação
A operação cumpriu 24 mandados de busca e apreensão em clínicas, residências e laboratórios ligados a Almeida e a outros médicos investigados. Entre os locais visitados está o laboratório Unikka Pharma, na zona sul de São Paulo, apontado como o responsável pela produção das ampolas apreendidas.
De acordo com as investigações, médicos investigados atuariam como sócios ocultos. Além da Tirzepatida, foram recolhidos anabolizantes, implantes hormonais e outros produtos manipulados em condições consideradas inadequadas para fabricação em grande volume.
Ilha usada como vitrine e centro de treinamento
Outro elemento que chamou atenção da PF é a Ilha de Carapituba, na Baía de Todos-os-Santos. Comprada em consórcio pelo médico e outras pessoas, ela teria servido de palco para cursos voltados a profissionais de todo o país, que viajavam até o local para aprender o chamado “Protocolo de Emagrecimento”.
Segundo o delegado federal Fabrízio Galli, o espaço funcionava como ambiente de capacitação e também de apresentação de produtos que posteriormente seriam repassados a clínicas e laboratórios.
O que dizem os envolvidos
A defesa de Gabriel Almeida afirmou que o médico não é endocrinologista, mas possui pós-graduações reconhecidas pelo MEC. O advogado Ricardo Cavalcanti reforçou que os encontros na ilha tinham caráter de treinamento e que o cliente não participa da produção de medicamentos, não integra o quadro societário da Unikka Pharma e seria apenas consumidor dos produtos do laboratório.
Em nota, a Unikka Farma negou qualquer fabricação ou comercialização do que classificou como “falso Mounjaro”. A empresa declarou fornecer apenas a clínicas e médicos habilitados, sem venda direta ao público.
A Anvisa informou que prestou apoio técnico na identificação dos produtos, mas que o caso está sob sigilo judicial, sendo a PF a responsável por divulgar detalhes da investigação.