Aos sete anos, Leonardo de Oliveira, de Marília (SP), integra um seleto grupo: está entre os 2% mais inteligentes do mundo. Membro da Mensa Brasil — sociedade internacional que reúne pessoas com alto QI — desde 2024, ele é um exemplo de criança com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), condição celebrada no último domingo (10). Mais do que facilidade com números ou aprendizado acelerado, essas crianças apresentam particularidades neurológicas que chamam a atenção da ciência.

Segundo Ana Cláudia, mãe de Leonardo, os sinais surgiram cedo:

“Quando tinha cerca de um ano e meio, ele já contava com muita facilidade. Antes dos dois anos, lia pequenas palavras na TV ou em fachadas”, lembra.

Aos três anos, o menino já realizava multiplicações e divisões — conteúdos normalmente ensinados apenas por volta dos sete ou oito anos. Diante dessa precocidade, os pais buscaram acompanhamento especializado. Hoje, Léo segue em acompanhamento com um neuropediatra, conciliando os estudos com brincadeiras e amizades na escola.

Em 2023, por indicação médica, ele passou por avaliação neuropsicológica completa. O resultado colocou Leonardo no Percentil 99 — acima de 99% da população —, com QI registrado entre 140 e 141. O laudo abriu as portas para a Mensa Brasil.

A complexidade do cérebro superdotado

O neurologista Igor de Lima Teixeira, especialista em transtornos cognitivos e de comportamento, explica que crianças com AH/SD apresentam diferenças marcantes no cérebro:

  • Neuroplasticidade acelerada na infância e adolescência, com maior volume de substância cinzenta;
  • Ativação precoce de áreas da memória;
  • Redes neuronais mais complexas, que integram diferentes regiões cerebrais de forma rápida e eficiente;
  • Maior conexão entre o córtex frontal e o sistema límbico, favorecendo criatividade, originalidade e comportamento mais “maduro” para a idade.

Essas crianças também apresentam densidade sináptica acima da média e poda sináptica mais eficiente, eliminando conexões redundantes e tornando as redes neurais até 30% mais eficazes. Elas conseguem ativar múltiplas redes cerebrais simultaneamente, resultando em decisões e criações mais criativas.

Características e desafios

De acordo com o especialista, crianças com AH/SD costumam aprender conceitos complexos rapidamente, demonstrar curiosidade intensa, pensamento crítico e foco profundo em áreas de interesse, mas podem se entediar com tarefas repetitivas. No aspecto socioemocional, é comum alta sensibilidade, senso de justiça apurado e preferência por interações com adultos, o que, às vezes, dificulta a socialização.

Entre os desafios, estão o perfeccionismo, o questionamento de autoridades e diferentes formas de sobre-excitabilidade (intelectual, sensorial ou psicomotora).

O neurologista cita o modelo dos três anéis de Renzulli como referência na identificação desses casos:

  1. Habilidades acima da média;
  2. Criatividade elevada para gerar soluções originais;
  3. Comprometimento com a tarefa, demonstrado por persistência e motivação diante de desafios.

Apoio é fundamental

O especialista alerta que nem todas as crianças superdotadas terão sucesso garantido: o desenvolvimento pleno depende do apoio de familiares e instituições.

Ana Cláudia reforça essa importância:

“Ele é amoroso, obediente, sensível e atento. Parece que o cérebro dele está sempre funcionando, sempre pensando. Mas, acima de tudo, é uma criança normal, que brinca com o irmão mais novo e vive a infância como qualquer outra.”

Teixeira conclui: “O acompanhamento adequado e o estímulo saudável durante a infância permitem que essas crianças desenvolvam suas habilidades sem perder o equilíbrio emocional. Assim, podem deixar um grande legado no futuro.”

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