A Polícia Federal avança em uma das maiores apurações já realizadas sobre o uso de emendas parlamentares no Nordeste. A Operação Overclean, que apura suspeitas de desvio de recursos públicos, chegou à sua nona fase nesta semana e passou a mirar diretamente agentes políticos, empresários e prefeituras beneficiadas por verbas federais.

Entre os investigados está o deputado federal Félix Mendonça Júnior (PDT-BA), quarto parlamentar citado formalmente no inquérito. Por determinação do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), agentes da PF cumpriram nove mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao parlamentar, em Brasília e na Bahia. A Justiça também autorizou o bloqueio de cerca de R$ 24 milhões em contas associadas aos investigados.

Emendas, municípios e suspeitas

As investigações indicam que recursos oriundos de emendas parlamentares foram destinados a pelo menos três municípios baianos, Boquira, Ibipitanga e Paratinga, que juntos receberam mais de R$ 25 milhões. Segundo a PF, parte dessas verbas teria sido usada em contratos que não resultaram em obras concretas ou foram executados de forma precária.

Em Boquira, os repasses chegaram a R$ 4 milhões; em Ibipitanga, quase R$ 13 milhões; e em Paratinga, pouco mais de R$ 8 milhões. O inquérito aponta indícios de pagamentos indevidos e acertos informais envolvendo agentes públicos e empresários.

Mensagens apreendidas no celular de um assessor do deputado, recolhido pela PF em junho de 2025, reforçam as suspeitas. O conteúdo revela diálogos com um empresário do setor de obras, nos quais são mencionadas supostas transferências financeiras a prefeitos das cidades contempladas. Em uma das conversas, há referência direta à forma de pagamento, com menção a transferências via PIX.

Defesa do parlamentar

Em nota, Félix Mendonça Júnior afirmou que nunca negociou a execução de emendas nem intermediou a contratação de empresas. Disse ainda que está à disposição das autoridades e confia no esclarecimento rápido dos fatos. As defesas do assessor investigado e do empresário citado não foram localizadas até o fechamento desta reportagem.

Asfalto que não chegou

A Operação Overclean também lançou luz sobre obras paradas ou inexistentes em outras regiões da Bahia. Em Campo Formoso, moradores seguem aguardando a pavimentação de uma estrada anunciada ainda em 2021. Passado mais de um ano, não há asfalto no local.

O convênio foi firmado entre a prefeitura e a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), com recursos de uma emenda do chamado orçamento secreto. A estatal informou que parte do valor previa contrapartida do município e que inconsistências detectadas em fiscalização comprometeram a continuidade do projeto.

À época, a prefeitura era comandada por Elmo Nascimento (União Brasil), irmão do deputado federal Elmar Nascimento (União-BA). Um relatório citado pela PF aponta que auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) associou os recursos da obra a emendas atribuídas a Elmar, o que ele nega. Procurado, o parlamentar optou por não conceder entrevista e afirmou, por mensagem, que não destinou recursos para aquela obra específica.

Trabalhadores prejudicados

Além do prejuízo aos cofres públicos, o esquema deixou um rastro social. Em Campo Formoso, trabalhadores contratados para a pavimentação relatam calotes. Um caminhoneiro ouvido pela reportagem afirma ter acumulado prejuízo de cerca de R$ 28 mil após meses de trabalho sem pagamento.

A obra estava sob responsabilidade da empresa Allpha Pavimentações. Em dezembro de 2024, os proprietários da empreiteira foram presos no aeroporto de Salvador com malas de dinheiro. Dados oficiais mostram que, nos últimos quatro anos, a empresa recebeu cerca de R$ 67 milhões em recursos federais, grande parte proveniente de emendas sem transparência.

Segundo a PF, a Overclean investiga um esquema que pode ter movimentado aproximadamente R$ 1,4 bilhão em quatro anos, envolvendo contratos com a Codevasf e outros órgãos.

Avanço das investigações em outros estados

As apurações também alcançaram Alagoas. Em Rio Largo, município da região metropolitana de Maceió, quase R$ 100 milhões em emendas foram liberados nos últimos seis anos. Mesmo assim, a população enfrenta problemas básicos, como falta de saneamento e unidades de saúde fechadas.

Uma obra de pavimentação financiada por emenda de quase R$ 6 milhões apresentou falhas estruturais pouco tempo após a entrega, com trechos do asfalto afundando. O deputado Arthur Lira (PP-AL) afirmou que pendências técnicas e desapropriações explicam os problemas e que há recursos reservados para correções.

Em Estrela de Alagoas, duas estradas rurais anunciadas pelo DNOCS tiveram apenas parte da execução concluída. As obras foram interrompidas após as eleições de 2024. O órgão atribuiu a responsabilidade à empresa contratada, que também é alvo de outra investigação da PF, a Operação Fake Road.

Fraudes e falta de controle

No Ceará e no Rio Grande do Norte, a Polícia Federal e a CGU identificaram indícios de superfaturamento, fraudes e uso de imagens falsas para simular obras concluídas. O prejuízo estimado chega a R$ 18 milhões. Relatórios apontam movimentações financeiras suspeitas envolvendo familiares de parlamentares.

Desde 2020, o chamado orçamento secreto consumiu cerca de R$ 38 bilhões. O mecanismo foi barrado pelo STF por falta de transparência, mas especialistas apontam que emendas de comissões passaram a cumprir papel semelhante, com R$ 8,6 bilhões movimentados apenas em 2025.

A PF afirma que as investigações buscam “abrir a caixa-preta” do uso dessas verbas. DNOCS e Codevasf, citados em diversos inquéritos, afirmam que atuam dentro da legalidade e que colaboram com os órgãos de controle.

Enquanto isso, em várias cidades do Nordeste, moradores seguem à espera de obras prometidas e nunca entregues.

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